Embora os dados de produção dos Estados Unidos tenham dominado a atenção do mercado nos relatórios de janeiro do USDA (United States Department of Agriculture - Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), a principal mensagem para o agronegócio está no cenário global de oferta e demanda. As atualizações do relatório WASDE (World Agricultural Supply and Demand Estimates) e das estimativas internacionais de produção reforçam um ponto central para 2026: a oferta global de grãos e oleaginosas está em expansão, e a concorrência entre os países exportadores tende a se intensificar.
Panorama global: a concorrência está aumentando
O USDA agora projeta uma produção recorde de soja no Brasil, estimada em 178 milhões de toneladas para o ano comercial 2025/26. Esse crescimento é impulsionado pela continuidade da expansão de área — que atinge um novo recorde — e por produtividades favorecidas por um clima mais regular e consistente nas principais regiões produtoras.
Após um início tardio da estação chuvosa, as precipitações se normalizaram a partir de dezembro, especialmente no Centro-Oeste e no Sul do país. Além disso, as previsões da NOAA indicam alta probabilidade de transição do fenômeno La Niña para condições de ENSO neutro no início de 2026. Para o agronegócio, esse é um sinal importante: anos de ENSO neutro costumam favorecer uma distribuição mais regular das chuvas no Sul do Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul, reduzindo riscos de quebra de produtividade e reforçando a capacidade exportadora do país ao longo do ano.
Índices de vegetação obtidos por satélite (NDVI) também sustentam expectativas de produtividade acima da média em estados como Mato Grosso, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul. O resultado é uma safra brasileira robusta, que consolida a América do Sul como principal fornecedora global no primeiro semestre do ano, aumentando a pressão competitiva sobre as exportações de soja dos Estados Unidos, especialmente no mercado chinês.
Trigo: fortes recuperações compensam perdas regionais
No mercado de trigo, os dados do USDA mostram contrastes importantes entre regiões, mas com um saldo global positivo de oferta.
A Argentina colhe uma safra recorde de 27,5 milhões de toneladas, impulsionada por produtividades históricas após condições climáticas extremamente favoráveis. Essa recuperação aumenta de forma significativa a disponibilidade exportável no Hemisfério Sul.
A Rússia, mesmo com redução da área colhida, registrou produtividades mais elevadas, levando a produção para 89,5 milhões de toneladas, uma das maiores da história. O bom desempenho do trigo de primavera compensou a redução na área de trigo de inverno.
Já a Turquia enfrentou queda na produção devido à seca em áreas de cultivo de sequeiro, mas essas perdas não foram suficientes para apertar de forma relevante o balanço global.
No mercado internacional, esses volumes reforçam a percepção de oferta confortável de trigo, limitando movimentos de alta nos preços, a menos que ocorram problemas climáticos nas lavouras do Hemisfério Norte mais adiante em 2026.
Milho: China e Américas ampliam a oferta
As estimativas do USDA indicam que a produção de milho da China atingiu um novo recorde de 301,2 milhões de toneladas, sustentada por produtividades históricas e por políticas governamentais voltadas à estabilização da área plantada e ao fortalecimento da oferta interna. Condições climáticas favoráveis nas principais províncias do nordeste chinês foram determinantes para esse resultado.
Na América do Sul, Brasil e Argentina seguem como grandes fornecedores de milho ao mercado global, mesmo com alguma variabilidade regional de produtividade. O efeito combinado é um balanço mundial de milho bem abastecido, especialmente para os segmentos de ração animal e uso industrial.
Estados Unidos: mais milho, soja estável
Dentro desse contexto global, o relatório Crop Production – Summary 2025 do USDA trouxe revisões relevantes para os Estados Unidos:
- Milho: produtividade e produção foram revisadas para cima, acima do esperado pelo mercado, confirmando uma safra maior do que o inicialmente previsto. Isso reforça um cenário de oferta confortável para 2026, com impactos diretos nas margens da pecuária, na indústria de etanol e na competitividade das exportações americanas.
- Soja: os números de produtividade e produção ficaram praticamente estáveis, levemente acima das expectativas, mas sem alterar de forma significativa a direção do mercado.
Os dados trimestrais de estoques de grãos também confirmam que milho e soja entram no período de inverno no Hemisfério Norte com estoques confortáveis, o que reduz a volatilidade de preços no curto prazo, a menos que haja uma aceleração inesperada da demanda.
Implicações estratégicas para o agronegócio
Para os tomadores de decisão do agronegócio, os relatórios mais recentes do USDA reforçam alguns pontos-chave:
- A concorrência nas exportações deve aumentar, especialmente em soja e trigo, com a ampliação da oferta na América do Sul e na região do Mar Negro.
- A gestão de margens ganha ainda mais importância, já que a ampla oferta limita altas expressivas de preços.
- Fatores como logística, prêmio/basis e arbitragem regional tendem a ter peso maior do que movimentos de alta nos mercados futuros.
- O clima segue como principal variável de risco, especialmente para a próxima safra dos EUA e para o final do ciclo das culturas sul-americanas.
Em um mercado marcado mais pela abundância do que pela escassez, execução eficiente, gestão de riscos e bom timing serão determinantes para diferenciar vencedores e perdedores ao longo da cadeia do agronegócio em 2026.